Maior premiação da ciência brasileira vai para a pesquisadora titular do Inpa, que desenvolve pesquisas na Amazônia há quase cinco décadas
Da Redação – CNPq
Foto: Igor Souza/ Ascom Inpa
A bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade é a vencedora do Prêmio Almirante Álvaro Alberto, edição 2026. Pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, Piedade trabalha há quase 50 anos na Amazônia, desenvolvendo pesquisas sobre ecologia, em especial a de ecossistemas, com foco na influência do pulso de inundação na biota e interações, manejo sustentável e monitoramento de áreas alagáveis. A pesquisadora também tem pesquisas em produção primária, balanços de carbono e ecofisiologia de espécies arbóreas e de plantas aquáticas.
“Receber o Prêmio Almirante Álvaro Alberto é um sonho inimaginável. Eu nunca imaginei que eu tivesse essa honraria atribuída pelos pares e pelo comitê, ao qual eu agradeço enormemente, porque eu vejo muitos dos laureados que me precederam e eles foram pessoas de grande importância e influência na minha carreira e vida”, agradece a pesquisadora, citando o geógrafo e professor Aziz Ab’Saber e a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader.
Assista ao vídeo – entrevista com a premiada:
Além de ser docente dos Programas de Pós-Graduação em Ecologia e Botânica do INPA, a pesquisadora lidera o grupo “Ecologia, monitoramento e uso sustentável de áreas úmidas (Maua)”, no mesmo instituto e foi a responsável pelo estabelecimento do Programa Ecológico de Longa Duração Peld Maua, que coordenou entre 2013 e 2019. Os estudos sobre ecossistemas de áreas úmidas da Amazônia realizados no âmbito do programa geram dados sobre a biodiversidade, dinâmica de carbono e impactos de mudanças antrópicas e do clima nesses ambientes críticos.
Criado em 1981, o Prêmio Almirante Álvaro Alberto é atribuído ao pesquisador que tenha se destacado pela realização de obra científica ou tecnológica de reconhecido valor para o progresso da respectiva área. Realizado em parceria com a Marinha do Brasil, o prêmio é concedido anualmente, em sistema de rodízio entre três grandes áreas do conhecimento: Ciências Exatas, da Terra e Engenharias; Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes; e Ciências da Vida – categoria deste ano. A cerimônia de premiação ocorrerá no Rio de Janeiro, no dia 07 de maio. O premiado recebe diploma, medalha e R$ 200 mil em dinheiro.
A pesquisadora explica que os pequenos e os grandes corpos d’água e a floresta, tanto de terra firme quanto a alagável, formam um conjunto que bombeia a água para os sistemas da terra. Essa água se transforma em rios que vão para outras regiões, como o Sul e o Sudeste, gerando precipitação e alimentando o agronegócio. “Então, é de suma importância para toda a população do Brasil e além, eventualmente”, salienta.
“A água sobe e desce ao longo do ano e transforma os sistemas de uma maneira única, gerando adaptações de organismos e também influenciando todas as cadeias alimentares e os estoques de carbono da região de uma maneira única. Então, a sociedade brasileira, de uma maneira geral, depende de todo o balanço hídrico da região amazônica”, observa Fernandez Piedade.
Com relação à Amazônia, Piedade explica que a subida e descida dos grandes rios, que pode variar em 10 metros, impactam não só toda a biota, como é chamado o conjunto de organismos que vivem às margens desses rios, mas também o ser humano. “Os ribeirinhos, os indígenas e todas as comunidades tradicionais que habitam esses sistemas dependem intrinsecamente dessa dinâmica. Para eles, é fundamental que esses sistemas sejam preservados e funcionem de forma adequada, o que nem sempre vem acontecendo. As áreas úmidas amazônicas, que incluem as áreas alagáveis, que são aquelas ao longo dos grandes rios, elas suprem de nutrientes todas as planícies alagáveis. Esses ambientes são aqueles onde os ribeirinhos e os moradores em geral fazem seus produtos, por exemplo, agrícolas, em pequena agricultura, que alimenta todo o cinturão de moradores das cidades maiores e menores”, diz.
Para a pesquisadora, entender tanto as razões econômicas quanto as cadeias entre os organismos da região é fundamental para a designação de áreas de preservação e para o entendimento da fragilidade e da necessidade de conservação desses sistemas funcionais da maneira como eles normalmente funcionam. Alguns dos resultados de suas pesquisas já indicam a importância da questão.
“E o que a gente tem encontrado é que, em 30 anos, mais de 125 quilômetros de áreas após a hidrelétrica de Balbina, que tem sido um dos nossos focos, as florestas vêm morrendo gradualmente, em função da falta de regularidade no suprimento de água, porque esse suprimento passa a responder à demanda energética”, diz, referindo-se à hidrelétrica construída no rio Uatumã, localizada na parte nordeste do Estado do Amazonas. Sua equipe também já evidenciou o papel do peixe boi amazônico como dispersor de sementes e plantas aquáticas. “Foi um achado fantástico, porque a importância desse animal emblemático já era citada de várias maneiras, mas nunca como um dispersor, o que significa que ele tem um papel mais importante ainda e a preservação desse animal nos sistemas aquáticos e de áreas alagáveis e úmidas da Amazônia”, ressalta.
Carreira norteada pela Ecologia
Embora desenvolva estudos na Amazônia há quase cinco décadas, Piedade afirma que atuar como pesquisadora na região ainda é um desafio. “Quando eu comecei a trabalhar 35, 40 anos atrás aqui, nós não tínhamos nenhum veículo de comunicação. Então se a gente ficava um mês no campo, 20 dias no campo, a nossa forma de comunicação com as pessoas era extremamente limitada. As pessoas incluem família, incluem todas as pessoas do nosso grupo de trabalho”, lembra.
A situação para pesquisadores melhorou desde então, mas a bióloga atenta para as distâncias na região, o que encarece os custos para se fazer uma expedição por lá. Muitas vezes, os pesquisadores têm de alternar trechos em transporte de barco, a pé ou em veículos para chegar ao destino. “Os custos para isso são enormes e talvez isso deveria ser considerado de forma mais adequada nos financiamentos e na perenização de financiamentos para pesquisa na Amazônia, que é muito importante”, opina.
A ecologia guiou os estudos de Piedade. Graduada em ciências biológicas pela Universidade Federal de São Carlos, em 1975, ela fez mestrado e doutorado em ecologia no INPA e pós-doutorado no Reino Unido. Durante 15 anos, compôs o Conselho Científico Internacional do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA, na sigla em inglês), que teve papel central na formação das novas gerações de pesquisadores sobre a região amazônica. O LBA é considerado um dos maiores projetos de cooperação científica internacional. Iniciado em 1998, com liderança do Brasil, reuniu instituições brasileiras, dos Estados Unidos, por meio da Agência Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa), da União Europeia e de países amazônicos em torno de sistemas de observação da Terra. Hoje é um programa estratégico do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), executado pelo Inpa.
Ao longo da carreira, a pesquisadora implantou e coordenou projetos nacionais e internacionais, com equipes multidisciplinares, sendo referência na formação de redes de cooperação consolidadas. Além disso, participou de projetos de longa duração, com ênfase na cooperação Brasil–Alemanha INPA/MCTI-Sociedade Max-Planck, coordenado por ela durante três décadas. Piedade também já foi pesquisadora visitante em várias instituições internacionais, especialmente da Alemanha e do Reino Unido.
Durante oito anos, a pesquisadora integrou o Conselho Nacional de Zonas Úmidas do MMA e o Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Ela preside o Conselho de Administração do Instituto Mamirauá e atua no Painel Científico para Amazônia (SPA) e foi membro titular do Comitê Assessor de Ecologia e Limnologia do CNPq no período de 2013 a 2016 e coordenadora do mesmo Comitê entre 2014 e 2016.
Ao ser perguntada por que quis seguir carreira acadêmica, a pesquisadora lembra de uma vocação expressa muito antes de se formar. “Eu sempre quis e tive uma curiosidade, eu diria, natural, por água e organismos associados a ela. Então, quando eu decidi fazer o curso de Biologia, eu imediatamente pensei que queria fazer pesquisa e de preferência na Amazônia. Então era um desejo que naquela época era basicamente um sonho. Nesse sentido eu me considero uma pessoa realizada, porque eu consegui seguir uma trilha que minha vocação, talvez o desejo, me direcionou, me indicou”, diz.
Para a pesquisadora, é fundamental estimular jovens cientistas a desenvolverem trabalhos na região. “Ainda existem lacunas de conhecimento tão enormes na região, e agora eu falo da Amazônia, mas isso pode ser projetado para outras regiões do país. Então, todos os esforços ainda são necessários e é uma corrida contra o tempo, uma corrida contra ações antrópicas deletérias, uma corrida agora também contra as questões da mudança climática que vem impactando os ambientes”, completa.
Piedade ainda reserva um conselho direcionado a jovens cientistas mulheres, que desejam trilhar caminho semelhante ao dela. “O olhar das mulheres tem sempre um aspecto que eu chamaria assim de humanização, não chamando os homens de desumanos, mas de talvez compreensão para trabalhos em grupo, porque as mulheres, e eu sou mãe, sou avó, a gente aprende a conciliar uma série de aspectos da nossa vida profissional com as demandas afetivas e isso se projeta também nos grupos de trabalho. Eu acho que nenhuma mulher deve se sentir menor e deixar de fazer pesquisa porque é mulher”, conclui.