
Por Dario Matos
O underground manauara ocupou o tapete vermelho do Teatro Amazonas. Mais do que um show, a gravação do acústico da banda Espantalho quebra um tabu cultural, levando o rock and roll autoral para o palco mais imponente da cidade. Nascida na efervescente cena alternativa dos anos 1990, a banda é, sem dúvida, um dos frutos mais refinados do rock amazonense.
Este projeto coroa uma trajetória de 30 anos de estrada. Tudo começou nos tablados do Circo do SESC com o primeiro hit, “Red”. A canção era um misto de estética suja e lirismo bucólico herdado do grunge; seus riffs distorcidos envolviam o público em um transe de êxtase e melancolia. Após esse marco, “Red” estourou nos walkmans da época, multiplicando-se em fitas cassete piratas que circulavam por todas as zonas da cidade. A faixa tornou-se hino indispensável nas rodas de violão da Praça do Congresso, em acampamentos e nos luaus na Ponta Negra, onde a melodia se fundia à fumaça e ao ar quente e úmido da Amazônia.
Marcos Terra Nova nos falou um pouco sobre as influências e a estética do som da banda:
“No início, nos inspirávamos muito em Alice in Chains e Nirvana; a ideia era, de fato, soar como eles. No entanto, tínhamos nossa própria bagagem e sabíamos que havia uma identidade ali. Eu dizia para mim mesmo: ‘quero ser eu mesmo e mostrar o meu trabalho com as influências da minha época’. Essa estética da ‘sujeira’ é o que dá o tom e o tempero ao grunge. É um som meio triste e visceral, que flerta com o feio e o bonito ao mesmo tempo, através do grito. Sempre fiz questão de manter essa característica, mesmo neste evento acústico. Por mais que tivéssemos sofisticado os arranjos, preservamos a pegada folk e a dinâmica entre a melodia suave e a entrega visceral; no fundo, o espírito continua o mesmo.”
A divulgação era “raiz”: cópias manuais distribuídas nos bares que ainda engatinhavam no apoio ao rock autoral. O grupo, liderado por Marcos Terra Nova, surgiu em 1995 como Scare Crow. Na virada dos anos 2000, tal como uma borboleta rompendo o casulo, a banda transmutou-se na Espantalho.
Tony Ferreira, fã da banda, lembra como conheceu o som:
“A primeira vez que ouvi uma fita cassete da banda foi lá pelos anos 90, no colégio. Eu estudei com o Marquinho no Dom Bosco e ele já estava com esse projeto da Scare Crow. Eles ensaiavam na loja do pai dele, ali perto do colégio, na rua Itamaracá. Ele já levava as coisas gravadas para a gente escutar no colégio, já com aquela pegada seguindo o rumo do grunge.”
A consolidação definitiva veio com a participação na coletânea histórica “Além da Fronteira Vol. 1”, com as faixas “Qual É?” e “Amanhecer Dirigindo”. Em 13 de setembro de 2003, o lançamento do álbum homônimo entregou uma sequência de clássicos: a poesia de “Patchulí”, o astral de “Colar de Estrelas” e a emoção de “Lágrimas das Nuvens”. Foi ali que a Espantalho realizou o inédito: fez o público manauara cantar em coro letras autorais, cravando o rock local no mapa da cultura regional.

Entre 2005 e 2014, a banda atravessou hiatos, mas sempre renasceu com a mesma qualidade estética. Marcos Terra Nova fala sobre a dificuldade do trabalho independente:
“Esses hiatos foram pelo cansaço de ver como a cena é difícil. Mas a vontade de tocar é sempre mais forte e a gente ‘manda ver’. Voltamos à atividade matando um leão por dia. Sempre foi tudo muito ‘na unha’, dando de cara com muita porta fechada. Mas se fechavam uma porta, a gente achava uma janela. O importante era manter o trabalho seguindo, porque uma coisa puxa a outra. Nem tudo são flores, mas a vontade sempre prevalece.”
Após o silêncio da pandemia, a fênix ressurgiu em 2022 com a formação original: Marcos, Mário Ruy e Erick. Lançaram o disco “Volver Rebuilt”, os singles “TBT”, “Déjà-vu Jerusalém” e agora “A Ferro e Fogo” (2026), que culminarão em um EP. Marcos explica o processo:
“O EP vai ser uma coletânea dos singles que estamos lançando um por um. A música ‘A Ferro e Fogo’, que executamos agora, era um projeto antigo que trouxemos de volta. É uma construção. Algumas gravações daquela época do primeiro álbum foram reprovadas e ficaram no limbo, como ‘TBT’, que agora recuperei como single.”
Agora, em 2026, a Espantalho toma conta do Teatro Amazonas. O palco de ópera hoje pertence aos riffs e à poesia urbana. Foi um show memorável; o público estava à flor da pele com as “lágrimas nas nuvens”, cantando os refrões enquanto passava um filme na mente de todos. Em alguns instantes, fomos transportados para polaroides antigas com amigos reunidos, celebrando a vida. A Espantalho é paradoxal entre o tempo e o espaço: uma mistura de passado, presente e futuro. A arte é atemporal e a poesia eterna.
Tony resume o sentimento:
“Ver a banda no Teatro Amazonas traz felicidade total. Não falo só como fã, mas como amigo. É um sentimento de conquista enorme. Ver isso acontecendo hoje é uma satisfação grandiosa.”
A apresentação no teatro se tornará o álbum acústico oficial, acompanhado de um vídeo produzido pela La Xunga Produções. Orlando Júnior, que assina a Direção de Fotografia, conta sobre o projeto:

“O convite partiu do Marcos Terra Nova, que não queria que esse momento histórico ficasse sem um registro. Inicialmente a ideia era algo simples, mas a La Xunga optou por cinco câmeras para garantir um registro à altura do espetáculo. Filmar a Espantalho no maior templo da nossa cultura amazonense é uma satisfação imensa.”
Marcos finaliza revelando que os próximos meses serão de foco total na produção desse álbum e das fotos oficiais. O rock de Manaus agradece.
Fotos: Dário Matos