
Por Dário Matos
Aqui, nós temos um ditado popular que diz: “Tudo acaba em pizza.” A expressão, que teria surgido no universo do futebol, encontrou guarita na política nacional e acabou incorporada ao vocabulário brasileiro como um jargão para definir escândalos que começam com estardalhaço e terminam, quase sempre, sem responsabilização à altura.
Na política brasileira, temos pizzas de variados sabores.
Durante a ditadura militar, por exemplo, servia-se a pizza “Segurança Nacional”. Era uma receita ampla e estruturada, que ajudava a desmentir o mito de que aquele período teria sido marcado pela honestidade e pela eficiência absoluta do Estado. A censura e o argumento da “segurança nacional” foram utilizados para blindar autoridades, restringir investigações e dificultar o acesso a informações sobre abusos, corrupção e desvios de recursos públicos.
Na virada para os anos 1980, durante o governo do general João Figueiredo, surgiu outro ingrediente indigesto: a subsidiária agropecuária da Capemi venceu uma licitação de grande porte para exploração de madeira na região amazônica. O caso acabou cercado de denúncias, suspeitas e prejuízos.
Com a redemocratização, depois de mais de duas décadas de regime militar, chegou à mesa a pizza “Caçador de Marajás”.
Fernando Collor de Mello foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto depois da ditadura. Durante seu governo, entre 1990 e 1992, seu nome ficou associado a um grande escândalo de corrupção envolvendo seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, o PC Farias.
Collor conseguiu a proeza de ser impeachmado apenas dois anos depois de assumir a Presidência.
Mas a pizzaria brasileira não fechou.
Em 2002, depois de anos de luta política, o país elegeu Luiz Inácio Lula da Silva, um operário que chegou à Presidência da República. Foi um acontecimento histórico. Lula governou em um período de forte crescimento econômico e implementação de políticas sociais que contribuíram para reduzir a pobreza e a fome, além de ampliar investimentos e programas nas áreas de educação e saúde.
Mas, enquanto uns assavam pizzas, outros preparavam a massa.
E então apareceu o pizzaiolo Roberto Jefferson, com um novo sabor: a pizza “Mensalão”.
O termo, popularizado por Jefferson em 2005, foi utilizado para descrever um suposto esquema de pagamentos periódicos a parlamentares da base aliada em troca de apoio político ao governo no Congresso Nacional. O escândalo desencadeou uma das maiores crises políticas do primeiro governo Lula e posteriormente resultou em condenações no Supremo Tribunal Federal.
A receita, porém, não desapareceu.
Com o tempo, ganhou uma nova embalagem: “Emendas Parlamentares”.
Durante o governo Jair Bolsonaro, especialmente a partir de 2020, ganhou força o chamado “orçamento secreto”, mecanismo associado às emendas do relator, cuja falta de transparência foi alvo de críticas e acabou considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal.
Daí em diante, a história nós já conhecemos.
Setores da burguesia brasileira encontraram na narrativa anticorrupção uma poderosa ferramenta para disseminar o antipetismo, contando também com ampla repercussão nos meios de comunicação.
Veio então a promoção “Dilma Fora”.
O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, tornou-se mais um capítulo dessa longa história. Para seus defensores, Dilma representava uma presidente que não aceitou negociar apoio parlamentar por meio de esquemas de corrupção. Para seus críticos, o processo era consequência de irregularidades fiscais e de uma grave crise política e econômica.
No Congresso, parlamentares que carregavam suas próprias contradições subiram à tribuna em nome de “Deus, Pátria e Família”.
A conta chegou ao forno.
O resultado foi a ascensão de um deputado do chamado baixo clero, com discurso radical, forte retórica antissistema e ligações políticas no Rio de Janeiro, que se apresentou como alternativa moralizadora à velha política.
Assim nasceu outro sabor: “Golpe Antidemocrático”.
Investigações da Polícia Federal apontaram a existência de uma trama que teria envolvido integrantes do governo Bolsonaro e aliados na elaboração de minutas de decretos e outras medidas destinadas a impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e manter Bolsonaro no poder após a eleição de 2022.
E chegamos ao sabor mais recente da casa: “Banco Master”.
Uma pizza com temperos dos mais variados, envolvendo dinheiro, mercado financeiro, relações políticas e suspeitas que alcançaram diferentes instituições da República. O caso transformou o banco em centro de um dos mais recentes escândalos financeiros e políticos do país, com investigações que alcançaram personagens ligados aos Três Poderes.
O recheio ainda está sendo descoberto.
E essa roda de pizza deixa a população nauseada.
Enquanto uns comem pizza de caviar, outros fazem fila para receber uma marmita. Enquanto alguns enchem a pança, milhões continuam contando moedas para chegar ao fim do mês.
Mas não podemos perder a esperança.
Há questões que precisam permanecer inegociáveis: democracia, soberania nacional, justiça social e representatividade política com consciência de classe.
A luta de classes existe.
E, muitas vezes, eles vencem.
Mas a história ainda está sendo escrita.
E, na pizzaria brasileira, há sabores tradicionais que nunca saem do cardápio: Barbalhos, Sarneys, ACMs, FHСs, Covas…
São receitas antigas.
Mudam os ingredientes, mudam os pizzaiolos, muda o nome da pizza.
Mas a fome do povo continua sendo a mesma.